domingo, 6 de março de 2011

Entrevista com o Dr. Douglas Kelly: A Santificação e os Puritanos



1. Dr. Douglas Kelly, por que os Puritanos foram chamados de os Teólogos da santificação?

“Nós poderíamos dizer que os Puritanos, na verdade, restabeleceram a doutrina da justificação pela fé somente, defendida pelos reformadores. Mas podemos dizer, que eles foram um pouco mais além quando trataram desta doutrina. Eles desenvolveram a doutrina de que a justificação deve produzir na pessoa uma total santificação na vida cristã prática. Eles desenvolveram a doutrina da santificação porque entendiam que esta santificação faz parte de todo o ser na vida social. Para eles, a conversão é uma renovação total, tanto da pessoa, como da sociedade”.

2. Se eles pregavam tanto a doutrina da predestinação por que se preocupavam com a santificação?

“Os Puritanos desejavam pregar todo conselho de Deus, todas as partes da Bíblia, não omitiam nenhum assunto. Certamente criam na predestinação porque criam que Deus é soberano. Mas, se cuidadosamente lermos e estudarmos os trabalhos que eles produziram, veremos que eles não superestimaram a questão da soberania de Deus. É um erro pensar que eles, nos seus escritos, superestimaram a predestinação. Posso dizer que a visão do puritano estava cheia da grandeza e do poder de Deus. Da mesma forma, tinham uma visão grandiosa do amor de Deus. Nesta visão do amor de Deus viam a glória do próprio Deus. A verdadeira maneira de expressar nossa gratidão pelo amor de Deus em nossa eleição é oferecer-lhE totalmente nossas vidas. Eles falavam muito da santificação como um elemento para nos capacitar a agradecer a Deus”.

3. Os Puritanos achavam que poderiam ser completamente santos aqui no mundo?

“Se você ler John Owen (o grande teólogo puritano), especialmente no volume 6 de suas obras, na parte que fala do pecado habitando no incrédulo, ou as obras de Richard Sibbes, no seu tratado, “A Cana Abrasada”, ou ainda nas obras de Richard Baxter, no seu livro “Pastor Aprovado”, você verá o equilíbrio com que tratam esta questão da santificação na vida do crente. Eles criam que nós somos feitos santos em Cristo. Mas, apesar disso, o crente deve lutar para buscar a santificação e a mortificação do pecado que vive nele. Dessa forma podemos ver que eles não criam que possamos alcançar uma perfeição aqui na terra. Eles ensinavam que nós podemos contar com a pessoa do Espírito Santo nessa luta. Criam que o Espírito Santo pode transformar nossas vidas, mesmo que não seja de um modo perfeito, mas substancialmente. O ensino deles está perfeitamente de acordo com o que escreve Paulo em Romanos 6, 7 e 8. Com Paulo eles estão em muito boa companhia.”

4. O quanto a santificação é um esforço meu e o quanto é uma obra de Deus?

“Acredito que este é mais um dos mistérios, como a soberania de Deus e a responsabilidade do homem. O que é básico e fundamental é que o eleito é unido na morte de Cristo e com a Sua ressurreição para vida. Então, toda a capacidade para sermos santos, vem do Espírito Santo que nos aplica os recursos da cruz. Mas isso não significa que a personalidade humana fica inativa e não faz nada. Eu penso que eles se firmavam no que o apóstolo Paulo ensina em Filipenses 2.2-13: “...desenvolvei a vossa salvação com temor e tremor; porque Deus é quem efetua em vós tanto o querer como o realizar”. Em resumo, o que eles criam era: o que Deus faz em mim me capacita a fazer o que eu preciso fazer. A união com Cristo não tira o que o homem tem de fazer, mas torna-o frutífero. Isto pode parecer um mistério filosófico, mas posso dizer que esta é a verdadeira obra que Deus opera na vida”.

5. Eu posso me converter e deixar a santificação para depois, como algo que é opcional na vida cristã? O que pensavam os Puritanos a este respeito?

“ Os Puritanos não criam que você seja convertido sem que tenha havido uma santificação. Isto é o resultado da seriedade como eles viam a doutrina bíblica da regeneração. Eles não criam de forma alguma que ir a Cristo é uma mera decisão humana sem o concurso da graça de Deus. Eles criam que ninguém pode vir a Cristo sem que o Espírito Santo tenha tocado no seu coração e operado uma regeneração. Uma das coisas essenciais que o Espírito Santo opera no coração do eleito é o desejo de santidade. O que os Puritanos diziam é exatamente o que Paulo diz em Romanos 6, capítulo um em diante. Então, o Espírito Santo nos traz unidos com a morte e ressurreição de Cristo. Isso significa que recebemos um novo desejo de sermos santos. Esta é a razão de todo verdadeiro crente ter o real desejo de ser santo, mesmo quando ele falha. Pensar que um crente possa ser um verdadeiro crente e não desejar santidade é simplesmente negligenciar e desmerecer o ensino da Palavra de Deus. Os Puritanos nunca pensariam que esta pessoa fosse de fato convertida”.

6. Em que áreas da vida os Puritanos são um exemplo de santidade para nós e como conseguiram ser tão santos?

“Me parece que os Puritanos tiveram uma visão real, completa, da santidade na vida. Eles não tinham uma visão dicotômica daquilo que é sagrado e daquilo que é mundano. Por isso tantos historiadores os odeiam. Os Puritanos recusaram aceitar a interferência do governo na educação, por exemplo. Eles pensavam que a vida pessoal, o governo, os negócios, tudo deveria estar debaixo do que ordena a Palavra de Deus. Exatamente por pensar de forma tão séria a respeito disso, é que surgiu a guerra civil na Inglaterra. Isto foi decisivo: a questão da mentalidade secular. Contudo, é importante que nós preservemos o equilíbrio. Os Puritanos nunca quiseram, na verdade, uma revolução política. Isto não era exatamente a preocupação deles. Seu objetivo principal era glorificar a Deus pessoalmente, na família e na Igreja. Isso era porque estavam tão preocupados em ter um culto puro. Por isso receberam o nome de Puritanos. Eu não conheço nenhum outro grupo, como os Puritanos, que buscassem com tanta seriedade e profundidade o serem santos conforme o Senhor nos manda na Sua Palavra. Muitos têm ouvido pregadores e expositores da Palavra de Deus por muitos anos, mas estes Puritanos que pregavam assim, expositivamente, viram a transformação acontecer na Inglaterra. O famoso historiador Richard Green, no século passado, disse que a família puritana elevou o conceito de piedade e de comunhão no lar. Todo pensamento de liberdade e justiça do mundo moderno vem da luta dos Puritanos. Por causa da piedade pessoal puritana, eles tinham a consciência de que Deus tinha de ser glorificado em todas as áreas da vida. Isto sempre causou um conflito com o poder reinante no mundo. Isto é a razão do porque os Puritanos, até hoje, têm um nome enlameado. Mas, na minha opinião, eles foram crentes consistentes de fato, e nós temos de imitar o exemplo deles. Podemos não fazer as coisas exatamente como eles fizeram, mas a idéia de Deus ser glorificado em todas as áreas da nossa vida certamente deve ser também o nosso alvo”.

7. Posso ter a esperança de ter esse mesmo espírito puritano nas Igrejas brasileiras?

Isso depende da pregação fiel da Palavra de Deus e o Espírito Santo ungindo-a. Talvez pudesse responder melhor citando um moto antigo da cidade de Glasgow, depois da Reforma: “Glasgow florescerá pela pregação da Palavra e pelo louvor do Senhor”.De fato podemos dizer que isto aconteceu. Da mesma forma, o Brasil há de florescer também quando a Palavra de Deus for pregada e Deus louvado em Espírito e em verdade. A Palavra de Deus em Hebreus diz que Jesus Cristo é o mesmo ontem, hoje e será para sempre. Certamente Ele pode fazer no Brasil o que Ele fez nos tempos passados na Escócia. Isto pode dar a você grande esperança. Amém!

Entrevista com Dr. Douglas Kelly, por ocasião do Congresso Nacional de Evangelização e Missões da Igreja Presbiteriana do Brasil, em Brasília. Dr. Kelly é professor de Teologia Sistemática no Reformed Teological Seminary, Charlotte, U.S.A. e estudioso dos Puritanos.

Fonte: Projeto Os Puritanos

Extraído do blog: http://blogdoseleitos.blogspot.com/2011/02/entrevista-com-o-dr-douglas-kelly.html#ixzz1EA47lrLY